Tudo é possível, só eu impossível….

2009 Novembro 17
por iLiquidus

Segredo
Carlos Drummond de Andrade

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

E o que mais, vida eterna, me planejas? O que se desatou num só momento não cabe no infinito, e é fuga e vento.

2009 Novembro 17
por iLiquidus

Instante
Carlos Drummond de Andrade

Uma semente engravidava a tarde.
Era o dia nascendo, em vez da noite.
Perdia amor seu hálito covarde,
e a vida, corcel rubro, dava um coice,
mas tão delicioso, que a ferida
no peito transtornado, aceso em festa,
acordava, gravura enlouquecida,
sobre o tempo sem caule, uma promessa.

A manhã sempre-sempre, e dociastutos
eus caçadores a correr, e as presas
num feliz entregar-se, entre soluços.

E o que mais, vida eterna, me planejas ?
O que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento.

de longe os disfarces parecem reais…

2009 Novembro 5
por iLiquidus

somos dois. somos um.

2009 Novembro 5
por iLiquidus

 

 

 

uma autoficção

2009 Novembro 5
por iLiquidus

Autobiografia? Não, isto é um privilégio reservado aos importantes deste mundo, no crepúsculo de suas vidas, e em belo estilo. Ficção, de acontecimentos e fatos estritamente reais; se se quiser, autoficção, por ter confiado a linguagem de uma aventura à aventura da linguagem, fora da sabedoria e fora da sintaxe do romance, tradicional ou novo. Encontro, fios de palavras, aliterações, assonâncias, dissonâncias, escrita de antes ou de depois da literatura, concreta, como se diz em música. Ou ainda: autofricção, pacientemente onanista, que espera agora compartilhar seu prazer.

Serge Doubrovsky

procuro alguém com quem dividir a vida…

2009 Novembro 2
por iLiquidus

Eterna procura
Anita Ferreira de Maria

Procuro alguém com quem dividir a vida.
A alegria a dois é mais alegria,
E a dor é menos dor.
Alguém que assista minha peça teatral,
Carregada de absurdos
De minha absurda pessoa.
Alguém que me tire a sensação
De águas despencando
De um trem correndo
E minha inquietação espiritual,
Alguém que encontre beleza
Na chama de um fósforo,
Poesia num grão de areia,
Num ventre gerando um ser.
Alguém que faça um poema
Ouvindo o meu silêncio,
Enxugando minhas lágrimas,
Beijando o meu beijo de amor.
Procuro alguém
Que me deixe brincar de fazer versos,
Brincar com idéias e palavras,
Como as crianças,
Que, brincando dizem o que sabem,
E fazem brincando o que não sabem.

baby, I need your loving…

2009 Novembro 2
por iLiquidus

a ânfora de sonhos que o destino me ofertou…

2009 Novembro 2
por iLiquidus

Ânfora de sonhos
Anita Ferreira de Maria

Eu tenho as mãos vazias.
Vazias não.
Eu tenho em minhas mãos
A ânfora de sonhos que o destino me ofertou,
E vou derramando pelos caminhos da vida,
Um pouco de mim mesma,
Um pouco de minh’alma sonhadora,
Nestes meus versos humildes,
Que são as rosas defolhadas
Do meu coração.

os que saem da curva…

2009 Outubro 23
por iLiquidus

Charmes do celibato
Contardo Calligaris

Deixar saudade e fazer falta é menos arriscado e mais prazeroso do que estar presente dia a dia

ALGUMAS SEMANAS atrás, uma leitora, Lucila Almeida, comentou minha coluna sobre “Casamentos Possíveis” observando que, paradoxalmente, o artigo a levara a “refletir sobre aquelas pessoas que não casam porque não conseguiram ou porque optaram por uma vida mais descompromissada”. “Essas pessoas”, acrescentava a leitora, “são cruelmente cobradas pela sociedade por não terem seguido o comportamento padrão”.
Seguia um pedido: que eu escrevesse um pouco sobre os “que saem da curva”, “por não casarem ou por não ter escolhido a profissão que dá mais dinheiro ou ainda por ter optado não ter filhos – enfim, por uma série de atitudes que não são consideradas padrão pela sociedade”. Por que eles parecem ser cobrados? E qual é a parte de inveja na cobrança?
Passei o último fim de semana no Rio Grande do Sul, numa celebração dos 20 anos da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, da qual fui um dos fundadores (desde a metade dos anos 80, quando cheguei ao Brasil, até 1994, a capital gaúcha foi o lugar onde escolhi morar). Bom, senti saudade, mas o que mais importa aqui é que fui comovido pelas marcas da saudade que deixei nos outros. No avião que me levava de volta a São Paulo, essa experiência produziu em mim algumas reflexões que se aplicam, em parte, ao celibato. Mas vamos com calma.
Certamente, casar-se ou juntar-se (com ou sem filhos) é um padrão, e quem “sai da curva” recebe uma cobrança dos próximos e da sociedade em geral. O fascismo italiano, por exemplo, desejoso de braços para ampliar e fortalecer a nação, instituiu um imposto sobre o celibato: “Não quer se casar? Paga multa”. Alguns dirão que é natural que seja assim: o casamento serve ao interesse da espécie; para que ela continue existindo, é necessário que a gente se reproduza ou, no mínimo, adote formas de divisão do trabalho que facilitam a sobrevivência: desde “Vamos dividir o aluguel?” até “Você cuida do fogo enquanto eu luto contra o urso que insiste em querer recuperar a caverna na qual a gente se instalou”.
O problema, claro, é que, às vezes, o urso mais perigoso é o outro com quem decidimos coabitar. Deve ser por isso que o celibato é, ao mesmo tempo, estigmatizado como um desvio (“E sua filha, coitadinha, encontrou alguém, enfim?”) e idealizado, invejado (“Você não casou? Sorte sua, fique firme e livre.”).
Diante dessa ambivalência, quem persiste no celibato vive sentimentos desagradáveis. Ele pode se sentir em falta com a família, a sociedade ou a espécie e pode também envergonhar-se por ser objeto de inveja enquanto, na realidade, sua vida não lhe parece invejável: às vezes, onde os outros enxergam liberdade, ele enxerga apenas sua incapacidade de encontrar alguém com quem compartilhar a vida e o medo de ficar sozinho para sempre.
Mas deixemos de lado as dificuldades de achar um par e a chatice de lidar com as cobranças sociais. E examinemos as razões pelas quais alguém, homem ou mulher, persiste no celibato.
Há a explicação tradicional: quem não casa se mantém fiel à sua família de origem – a menina, fiel ao pai; o menino, fiel à mãe. Ela vale em muitos casos, e note-se que é uma via de mão-dupla: frequentemente, é o desejo dos pais que mantém um filho ou uma filha no celibato, como companhia ou, quem sabe, como enfermeiros para a velhice dos genitores.
Outra explicação me foi dada por um amigo, anos atrás. Como ele não parava de descasar e casar-se com mulheres diferentes ou, mais de uma vez, com a mesma, ele me disse, para se justificar: “Não sou sádico”. Como assim? Pois bem, ele achava que recusar o casamento ao outro de quem gostamos (e que gosta de nós) só pode ser uma maneira de torturá-lo com uma privação: “Amo você, mas há algo que nunca lhe darei”.
Enfim, as emoções da viagem a Porto Alegre me sugeriram uma terceira explicação, que não é universal, mas é a que prefiro. Há homens e mulheres que podem persistir no celibato porque deixar saudade e fazer falta é prazeroso e certamente menos arriscado do que estar lá a cada dia. Eles pensam: “Melhor ser o parceiro com quem o outro lamenta não se ter casado do que ser o parceiro com quem ele lastima ter se juntado”.
De fato, nos instantâneos que imortalizam encontros breves que parecem prometer futuros radiosos (e irrealizados), a gente é sempre mais bonito e sorridente do que nos longos reality shows das convivências conjugais.

não consigo acabar com a saudade…

2009 Outubro 22
por iLiquidus

“Eu não vou conhecer todos os lugares que desejo, nem tudo e todos que quero. Não posso viajar no tempo. Não consigo acabar com a saudade, nem conseguirei. Eu vou morrer algum dia. O cinema é só um sonho.” ( filme Cinema Paradiso)

algumas noites eu queria pegar a vida pela mão, e levá-la pra passear…

2009 Outubro 21
por iLiquidus

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, de Michel Gondry [2004]

Algumas noites eu queria pegar a vida pela mão, e levá-la pra passear. Queria dela me embebedar e nela o mais fundo – que desse – me enfiar… Depois queria conseguir me separar e nunca nada, mas nada mesmo, do que se passou lembrar. Como num sonho, queria acordar num outro dia e nada encontrar, nenhuma flor ou sutiã. Queria não querer para não lembrar, e então não ter o que exigir, ou formalidade a respeitar. Ligar no dia seguinte pra que, meu amigo, eu trepei com vida! Queria esquecer para não correr o risco de pensar em repetir, de começar a precisar e ter que perdoar. Queria nunca saber, nem mesmo imaginar, o que está por vir se pela porta de sair ela entrar. Qual é o problema de ter a melhor noite de uma vida numa quarta-feira e não tentar repetir o feito? Felizes para sempre eu sei que não vai dar. E certas pessoas já me ensinaram que na prática é melhor viver do que ser feliz. P.S.: Desculpa não falar do Gondry. O cara é gênio, e este filme é foda – e é mais ou menos sobre tomar chuva e não se molhar. Vale o torrent na internet ou ticket da locadora, mesmo com essa dupla de protagonistas pra lá de esquisita. A trilha é ainda mais pancada.

texto do site B-Coolt

holding hands forever

2009 Outubro 20
por iLiquidus
Malmö Park

eu te amo ocasional…

2009 Outubro 20
por iLiquidus

há mulheres
que têm diversos namorados
depois casam e têm diversos filhos e filhas
eventualmente um ou dois amantes
e chegam no fim da vida
sem nunca sentirem-se amadas como as artistas

há mulheres
que tiveram uns poucos flertes ligeiros
no máximo um amor platônico
não casam, não fazem filhos
cultivam meia dúzia de amigos
e nunca se sentem benquistas

há mulheres
que preferem ficar sozinhas
não amam senão viagens, plantas e espelhos
e no entanto os homens morrem por elas
largam a família, se atiram a seus pés
amam estas mulheres com o amor mais
puro que existe,
e nem isso conquista
fraqueza, defeito
desvio cultural
herança genética, trauma de infância
carência existencial
vá saber a razão
para tanto
eu te amo ocasional
nenhuma mulher se sente
amada o suficiente
desista

tudo em mim anda a mil…

2009 Outubro 20
por iLiquidus

tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas

Paulo Leminski

la vida va y viene y no se detiene…

2009 Outubro 19
por iLiquidus

tenho códigos secretos

2009 Outubro 18
por iLiquidus

tenho códigos secretos de relacionamento
pra me identificar neste mundo onde
todos se parecem
adoro pronomes pessoais e sujeitos
indeterminados
e trato deus por você nas minhas preces

I’ll go my way by myself, love is only a dance…

2009 Outubro 18
por iLiquidus

era amor

2009 Outubro 18
por iLiquidus

era verão ou qualquer troço assim
lua cheia ou algo parecido
uma saudade ou quase a mesma coisa
era amor ou mais ou menos isso

Martha Medeiros

quem se apaixonou…

2009 Outubro 18
por iLiquidus

Descontruções
Martha Medeiros

Quando a gente conhece uma pessoa, construímos uma imagem dela. Esta imagem tem a ver com o que ela é de verdade, tem a ver com as nossas expectativas e tem muito a ver com o que ela “vende” de si mesma. É pelo resultado disso tudo que nos apaixonamos. Se esta pessoa for bem parecida com a imagem que projetou em nós, desfazer-se deste amor, mais tarde, não será tão penoso. Restará a saudade, talvez uma pequena mágoa, mas nada que resista por muito tempo. No final, sobreviverão as boas lembranças. Mas se esta pessoa “inventou” um personagem e você caiu na arapuca, aí, somado à dor da separação, virá um processo mais lento e sofrido: a de desconstrução daquela pessoa que você achou que era real.

Desconstruindo Flávia, desconstruindo Gilson, desconstruindo Marcelo. Milhares de pessoas estão vivendo seus dias aparentemente numa boa, mas por dentro estão desconstruindo ilusões, tudo porque se apaixonaram por uma fraude, não por alguém autêntico. Ok, é natural que, numa aproximação, a gente “venda” mais nossas qualidades que defeitos. Ninguém vai iniciar uma história dizendo: muito prazer, eu sou arrogante, preguiçoso e cleptomaníaco. Nada disso, é a hora de fazer charme. Mas isso é no começo. Uma vez o romance engatado, aí as defesas são postas de lado e a gente mostra quem realmente é, nossas gracinhas e nossas imperfeições. Isso se formos honestos. Os desonestos do amor são aqueles que fabricam idéias e atitudes, até que um dia cansam da brincadeira, deixam cair a máscara e o outro fica ali, atônito.

Quem se apaixonou por um falsário, tem que desconstruí-lo para se desapaixonar. É um sufoco. Exige que você reconheça que foi seduzido por uma fantasia, que você é capaz de se deixar confundir, que o seu desejo de amar é mais forte do que sua astúcia. Significa encarar que alguém por quem você dedicou um sentimento nobre e verdadeiro não chegou a existir, tudo não passou de uma representação – e olha, talvez até não tenha sido por mal, pode ser que esta pessoa nem conheça a si mesma, por isso ela se inventa.

A gente resiste muito a aceitar que alguém que amamos não é, e nem nunca foi, especial. Que sorte quando a gente sabe com quem está lidando: mesmo que venha a desamá-lo um dia, tudo o que foi construído se manterá de pé.

Martha Medeiros

strange in paradise

2009 Outubro 18
por iLiquidus