muitas risadas!!!!!
A fraqueza faz a força
Contardo Calligaris
O ideal masculino hoje é o homem corroído ou, no mínimo, arranhado por demônios internos
NA SEMANA passada, escrevi sobre a dilacerante tristeza dos crepúsculos. Uma leitora, Júlia Hokama, perguntou-me, brincando: “Psicanalistas também sofrem de melancolia?”.
Bom, em “Uma Mente Inquieta” (WMF Martins Fontes), Kay Redfield Jamison, uma grande psicóloga clínica, contou seu próprio calvário ao ser sacudida por seus humores variáveis, entre mania e depressão profunda. O livro ainda é, ao meu ver, a contribuição mais tocante e decisiva em matéria de transtornos bipolares. Jamison escreveu também “Touched by Fire” (tocados pelo fogo: a doença maníaco-depressiva e o temperamento artístico), em que diagnosticou como maníaco-depressivos uma série de grandes escritores, deixando-nos com a pergunta: foram escritores e grandes por causa de sua doença ou pelo esforço de ultrapassá-la pela arte?
Seja como for, em 1941, bem antes de Jamison, Edmund Wilson, o crítico literário, publicou “The Wound and the Bow” (a ferida e o arco). Em seis ensaios, ele mostrou como Dickens, Kipling, Wharton, Hemingway, Joyce e Casanova transformaram sua ferida mais dolorosa e central em arte, ou seja, mostrou como eles encontraram sua força em sua maior fraqueza.
Em mais um ensaio, que dá nome ao livro, Wilson aborda uma tragédia de Sófocles, “Filoctetes”, que era um guerreiro grego, dono e usuário legítimo do arco e das flechas que tinham pertencido a Héracles (armas poderosíssimas).
À caminho de Troia, Filoctetes foi mordido por uma serpente, e sua ferida doía e fedia terrivelmente; os gregos, cansados do fedor e das lamentações do guerreiro, abandonaram-no na ilha de Lemnos.
Dez anos mais tarde, os mesmos gregos entenderam que, sem Filoctetes, eles não ganhariam a guerra; eles voltaram a Lemnos para pegar, ao menos, o famoso arco. Um jovem convenceu a todos de que o arco sem Filoctetes seria inútil. Enfim, Filoctetes se reintegrou na armada grega e foi um dos guerreiros escondidos no ventre do famoso cavalo de Troia.
Para Wilson, Filoctetes é o protótipo do herói trágico segundo Sófocles, o herói cuja força e habilidade extraordinárias são inseparáveis do fedor e da dor de uma ferida, física ou moral, que nunca sara.
Essa ideia, de que a força é indissociável da fraqueza e talvez, às vezes, coincida com ela, é tão antiga quanto a invenção mítica de heróis e heroínas. Aquiles não seria ninguém sem seu calcanhar, o Super-homem seria insosso sem sua sensibilidade à kryptonita etc.
Em particular, mesmo nos anos 1950-1970, quando Hollywood parecia preferir que seus “machos” fossem heróis sem falha ou quase, sempre apareciam Filoctetes feridos, que conquistavam a admiração dos homens e o amor das mulheres.
Entre as fileiras dos John Waynes, insinuava-se, sei lá, James Stewart desesperadoramente fóbico das alturas, em “Um Corpo que Cai”, de Hitchcock, ou Montgomery Clift compondo um Freud atormentado, em “Freud, Além da Alma”, de John Houston.
Esses dois tipos de herói brigavam entre si – nos corações das plateias e na realidade do set: por exemplo, durante a filmagem de “Rio Vermelho”, de Howard Hawks, John Wayne e Walter Brennan manifestavam publicamente sua indignação com a “bichice” de Montgomery Clift.
Talvez os heróis “de uma peça só” (digamos assim) ainda prevaleçam, mas há claros sinais de que o ideal masculino da década que acaba é o do homem corroído ou, no mínimo, arranhado por seus próprios demônios internos.
Na televisão, por exemplo, a década começou com um chefão da máfia tendo que recorrer a uma psicoterapeuta (“Família Soprano”, HBO) e acabou com o terapeuta de “In Treatment” (HBO), que é verossímil (e adorável, aliás) justamente por ser tão perturbado quanto seus pacientes. Além disso, tanto o herói de “The Mentalist” (Warner) quanto o de “Lie To Me” (Fox) parecem dever suas aptidões extraordinárias às feridas de seu passado. O mesmo, provavelmente, vale para “House” (Universal).
Em 2009, foi montada, em São Paulo e no Rio, uma peça de minha autoria, “O Homem da Tarja Preta” (sinto-me autorizado a mencioná-la pois ela está no fim de sua última temporada, em Salvador). Pois bem, quando eu a escrevi, cinco anos atrás, parecia-me ousado expor assim a fragilidade do “macho”. Hoje, já acho que as dúvidas, os conflitos psíquicos e as fraquezas atormentadas são o equivalente da ferida de Filoctetes, ou seja, quase o fundamento da eventual força do homem contemporâneo. É um progresso, não é?
O trauma do amor
Contardo Calligaris
Todo amor busca compensar um desastre amoroso passado; somos feridos antes da batalha
NESTES DIAS, reencontrei Gérard Pommier, um colega e amigo que não via há quase 15 anos. Ele está de passagem pelo Brasil, palestrando.
Num fim de tarde, sentados na minha cozinha, colocamos a conversa em dia: filhos, trabalho e, claro, divórcios, separações e novos amores.
No capítulo “divórcios e separações”, prevaleceu o tema (tragicômico) das indenizações financeiras. Como era de se esperar numa conversa entre homens, constatamos a curiosa contradição entre a reivindicação feminina de autonomia e, por outro lado, o fato de que muitas mulheres, ao se separarem, exigem uma reparação monetária.
Por estarmos ambos sóbrios, não discutimos o fundamento das pensões alimentícias para as crianças nem o da retribuição pelos anos em que uma mulher pode ter renunciado à sua vida profissional para se dedicar ao lar. Apenas estranhávamos o tipo de demanda raivosa que dá a impressão de pedir indenização pelo amor perdido.
Nos homens como nas mulheres, os amores que acabam deixam a sensação de um dano quase físico, material (“retiraram uma parte de mim”) – um dano, portanto, que poderia ser compensado. Deve ser por isso que tanto os homens quanto as mulheres, às vezes, “curam” as dores de uma separação com aquisições extravagantes. “Ela me deixou? Compro uma moto.”
Mas as mulheres, freqüentemente, preferem que a reparação do dano seja o ônus do ex-parceiro. Mesmo quando a iniciativa da separação foi da própria mulher (ou compartilhada por ela) e não houve “infidelidade” do lado do homem, as mulheres tendem a viver a separação como uma traição, como uma crueldade que lhes foi feita, uma sacanagem.
Há como explicar essa diferença, mas isso, hoje, não vem ao caso. O fato é que a conversa com Pommier foi interrompida porque eu fui assistir ao filme de Wong Kar-wai, “Um Beijo Roubado”, que acaba de estrear. Pommier, que já tinha visto o filme na França, prometeu que ele tinha a maior relação com nossa conversa daquela noite.
De fato, o filme de Kar-wai é uma esplêndida elegia sobre o trauma amoroso. Os quatro personagens principais são todos inválidos da guerra das paixões. Ficam num canto lambendo suas feridas ou saem pelo mundo afora para esquecê-las ou cicatrizá-las, mas, de qualquer forma, para eles, um novo amor é a tentativa de compensar um desastre passado, que os deixou sem chaves para as portas da vida.
Para um psicanalista, é um prato cheio: confirma-se, indiretamente, a idéia de que nos apaixonamos pelos outros porque não nos foi permitido ficar com a mãe e ou com o pai. Todo amor corrigiria uma grande decepção amorosa, forçada e originária, todo amor seria um paliativo contra as dores da renúncia a nossas paixões edipianas. Ou seja, atrás de nossa vida amorosa, sempre há um dano inicial. “Será que alguém paga um dia?”, diriam as mulheres evocadas na conversa com Pommier.
Tudo bem, mas o complexo de Édipo, que se tornou sabedoria psicológica comum, não deixa de ser um mistério. Por que seríamos saudosos de uma única relação que nos foi proibida para que todas as outras fossem permitidas? Por que seríamos para sempre queixosos de uma única perda que nos libertou e nos soltou pelo mundo?
Mais misterioso: é raro que a lembrança de nossos primeiros afetos amorosos (com a mãe, especialmente) seja a de um idílio; em geral, ela vem junto com a queixa de termos sido, de uma maneira ou de outra, preteridos ou mesmo traídos. Talvez essa lembrança queixosa seja influenciada pelo que vem depois: a gente veria nossa primeira infância pelo prisma das dores da autonomia, do crescimento e da separação.
Mas talvez haja algo mais, algo que nos torna feridos antes da batalha, queixosos de ter sofrido um dano antes de qualquer amor, inclusive antes daquela primeira relação, miticamente feliz, com a mãe. Talvez a sensação de que fomos traídos, e não nos foi dado o que queríamos e esperávamos anteceda o amor e suas frustrações. Talvez todos os amores, inclusive o edipiano, sejam apenas compensações frustrantes por um dano que, aliás, inevitavelmente, eles renovam. Mas de que dano estou falando?
De qual sensação originária de que o mundo sempre nos priva porque nunca responde à altura de nossos pedidos?
A resposta seria complicada e incerta, mas há um atalho. Pergunte para qualquer jovem mãe esbaforida: “Afinal, o que quer um bebê?”.
Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos?
Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade.
Felicidade? Nunca vi palavra mais doida (…)
Mas que ao escrever – que o nome real seja dado às coisas. Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, inventa-se-a. Esse vosso Deus que nos mandou inventar.
Por que escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz conteúdo. Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de “força maior”, como se diz nos requerimentos oficiais, por “força de lei”.
Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.
Clarice Lispector – A hora da Estrela
Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.
Jack Kerouac
É tão doce sonhar…A vida nesta terra, vale, apenas
Pelo sonho que encerra..
Sua íris ardia verdoenga…com o sinistro olhar de uma pantera..
Pareciam duas bocas de treva… tive medo..tinha a sensação
De estar num abismo…Para que beijar?
Para ver tristonho no tédio do meu lábio o vácuo do meu sonho…
A história desse olhar é toda a minha história…
Menotti del’Picchia
a força de um ato
dura o tempo exato
para ser compreendida
depois disso é bobagem
vira longa-metragem
por acaso estendida
fora o essencial
nada mais é natural
vira apenas suporte
pena a vida não ter corte
Martha Medeiros
Decidir quando é mais oportuno dominar as próprias paixões é curvar-se à realidade ou ao contrário, aceitá-las e preparar-se para defendê-las contra o mundo externo e isto constitui o alfa e o ômega da experiência da vida.
(Freud)

Coisa mais bonita é você, assim
Justinho você, eu juro
Eu não sei por que você
Você é mais bonita que a flor
Quem dera a primavera da flor
Tivesse todo esse aroma de beleza
Que é o amor
Perfumando a natureza numa forma de mulher
M, DE MEMÓRIA
Paulo Leminski
Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
Um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.
HARD FEELINGS
Paulo Leminski
Oceans,
emotions,
ships, ships,
and other relationships,
keep us going
through the fog
and wandering mist
What is it
that I missed?


